22/11/2017

O CARTEIRO CHOROU...


A rotina na vida de muitas pessoas é um fato! Entre essas, podemos citar a do carteiro. Vamos contar a história do carteiro José, pessoa humilde, trabalhadora e honesta que mora na periferia da cidade. Pela manhã, no mesmo horário, todos os dias, José  sai de casa para o mesmo trabalho. Ajuda a separar as cartas por endereço, para não andar em ziguezague  nas ruas quando for entregá-las. “Precisamos usar a cabeça para diminuir o trabalho das pernas”! Costuma dizer aos amigos de outras profissões. “Ainda bem que, apesar de  a bolsa ser pesada  vai se esvaziando à medida que as pernas vão cansando”.
As pessoas primam pela responsabilidade dos eternos mensageiros. A rotina do trabalho faz com que ele conheça todas as pessoas residentes no bairro onde trabalha. Conhece o filho da Maria que foi  trabalhar em São Paulo e ainda se corresponde mensalmente com a mãe. Vibra com a alegria da mãe ao receber a carta do filho. Sente-se o mensageiro da alegria. A Judite abre-lhe um grande sorriso ao receber a carta do marido bancário que foi transferido para São Paulo.  O carteiro  sente-se o mensageiro da paz.  A Joana recebe com grande alegria e beija a carta cada quinze dias ao recebê-la do namorado que atualmente trabalha em Belo Horizonte. O carteiro sente-se o mensageiro do amor!  O  dono do supermercado dá-lhe um sorriso imenso ao receber a correspondência do Banco que demonstra-lhe os milhões acumulados! Sente-se o mensageiro da riqueza. De vez em quando lhe traz correspondência do Fórum. Sente-se o mensageiro da justiça!  Quantas vezes teve vontade de abrir a correspondência do dono do supermercado para verificar quantos milhões no Banco e quantos processos na justiça! A ética entretanto, nunca lhe permitiu tal desvio de caráter.  A viúva Celestina era outra que lhe causava espécie quando ele entregava-lhe uma carta e no outro dia, ela viajava.  Que segredo teria a viúva Celestina? Para aonde iria frequentemente?  Um filho, uma filha, um amante morando fora da cidade? Isso ela nunca lhe disse! Ele tinha uma vontade imensa de saber, mas a tal de ética comentada pelo chefe nas reuniões mensais, faziam-no respeitara a digna profissão!
Assim vivia o carteiro José na sua rotina de trabalho e de sonhos, de curiosidade  e de desconfiança, mas de cumpridor emérito de suas obrigações!
  Certo dia, começou a ter dor nas pernas. O médico atropelado pelo intenso trabalho  do Postinho de Saúde, por tantos pacientes e sem saber que ele era carteiro, disse-lhe que as dores eram por falta de exercícios! Recomendou-lhe  andar quatro quarteirões todos os dias. A dor iria desaparecer. Informado que o paciente era carteiro e que andava cerca de 30 quilômetros por dia, mudou o diagnóstico e após RX dos joelhos, disse-lhe que o caso era artrose avançada dos joelhos e ele deveria ser afastado definitivamente do trabalho. A luta com os afastamentos foi intensa, mas depois de algum tempo aposentou-se por falta de condições para o trabalho. A vida dele modificou radicalmente! De “andarilho” passou a ser “estacionado”. A adaptação foi difícil, mas a necessidade o obrigou ao repouso.
Sentado no alpendre de sua pequena casa, via o novo carteiro passar.  Ele trazia-lhe um breve sorriso, algumas palavras passageiras, às vezes tomava um copo de água,  mas o tempo de conversa era pequeno e a ausência de correspondência para ele era infinita! Correspondência para ele não vinha nunca!  Sentia-se solitário e quase abandonado por isso. Nunca tivera a satisfação de receber  correspondência com o nome dele gravado no envelope. Chegava a rir de sua própria tristeza! Riso trágico, macabro! Rir da infelicidade é quase loucura! De quando em vez sonhava que estava em plena atividade e sobressaltava-se ao acordar e ver que estava sentado no alpendre com grande dificuldade de caminhar!
Os dias passavam! Dois meses se passaram e o pobre carteiro imbuído no seu sonho de ainda estar trabalhando, entregando felicidade e preocupação,  foi perdendo a vontade de viver e de sonhar.  A depressão tomou conta de seu corpo e de sua alma! Todos os dias fechava os olhos com aperto das pálpebras para segurar algumas lágrimas que forçavam saltar  quando o novo carteiro passava. Este  cumprimentava-o, de vez em quando  tomava água e partia. Alguns dias após, entretanto, o  carteiro novo com sorriso aberto, trouxe-lhe a primeira carta no seu velho endereço. O velho carteiro não  se conteve e abriu a carta à frente do amigo! Era uma carta de cumprimentos e um Diploma de Honra ao Mérito pelos 30 anos de trabalho na empresa  para a qual dedicou boa parte de sua vida. Desta vez o aperto dos olhos não foi capaz de segurar as lágrimas que tentavam escorrer pela face! Desta vez, o carteiro chorou...

                                              NELSON JACINTHO
                               CONTO VENCEDOR ABRAMES 2017


19/11/2017

SOU VIDA



Estou no compasso que indica o caminho,
nas curvas que em paz não invejam a reta,
nos olhos que veem liberdade no ninho,
nos passos de quem não desiste da meta.

Sou vida, lembrança, momentos felizes.
Nas coisas mais simples encontro alegria.
Estou na esperança: curar cicatrizes,
deixar que a saudade se torne poesia.

Sou vida, coragem de erguer a bandeira.
Defendo a premissa de sermos iguais.
Estou no trabalho subindo a ladeira
que vence os limites, no fundo, irreais.

Sou livre pensar dessas mentes abertas
que lutam por sonhos que não são só seus.
Proponho verdade nas horas incertas.
Nem sempre consigo esquecer um adeus.

Sou vida e eu sempre me faço presente
pois é no presente que faço valer.
Estou no momento, precioso, indolente,
em que simplesmente eu aprendo a só ser.

E quando eu termino e escureço a memória
percebo que ainda prossigo serena.
Cumprida a missão eu escolho outra estória
que pode ser curta, mas nunca pequena.

Um dia, porém, minha chama se encerra.
Revejo os mil planos que fiz desde outrora.
O tempo se curva... A cortina se fecha...
E eu longe do palco, pergunto: E agora?

MÁRCIA ETELLI COELHO

POESIA VENCEDORA ABRAMES 2017

14/11/2017

CONCURSO ABRAMES 2017

RESULTADO DO CONCURSO LITERÁRIO
ACADEMIA BRASILEIRA DE MÉDICOS ESCRITORES
ABRAMES 2017
  
ALDRAVIA - CATEGORIA ACADÊMICA
1º lugar Aldravia - SEM TÍTULO - Ac. Cid Jose de Carvalho Magioli/ RJ.
2º Lugar Aldravia - TÍTULOS EM QUESTÃO - Ac. Em. Abílio Kac/ RJ.
3º Lugar Aldravia - PALAVRAS - Ac. Em. Tito de Abreu Fialho/ RJ.

CONTO - CATEGORIA ACADÊMICA
1º Lugar Conto - Ac. Nelson Jacintho/ SP.
2º Lugar Conto - Ac. Em. Luiz Gondim de A. Lins/ RJ.
3º Lugar Conto - Ac. Em.  Pedro Diniz de Araújo Franco/ RJ.

CRÔNICA - CATEGORIA ACADÊMICA
1º Lugar Crônica - AUSÊNCIA - Ac. Em. Luiz Gondim de A. Lins/ RJ.
2º Lugar Crônica - O DISCURSO QUE SE ENCANTOU - Ac. Ac. Marcia Etelli Coelho/ SP.
3º Lugar Crônica - RUGAS - Ac. Hélio Begliomini/ SP.

ENSAIO - CATEGORIA ACADÊMICA
1º Lugar Ensaio - ENIGMA DE CAPITU - Ac. Em. Luiz Gondim de A. Lins/ RJ.
2º Lugar Ensaio - MEDICINA E LITERATURA - UM ELO MILENAR - Ac. Marcia Etelli Coelho/ SP.
 3º Lugar Ensaio - ABRAMES 30 ANOS DE HISTÓRIA E SERVIÇOS - Ac. Hélio Begliomini/ SP.

POESIA - CATEGORIA ACADÊMICA
1º Lugar Poesia - SOU VIDA - Ac. Ac. Marcia Etelli Coelho/ SP.
2º Lugar Poesia - TANGO, TAPAS E VINHO - Ac. Josyanne Rita de Arruda Franco/ SP.
3º Lugar Poesia - TU - Ac. Em. Luiz Gondim de A. Lins/ RJ.

TROVA - CATEGORIA ACADÊMICA
1º Lugar Trova - SEM TÍTULO - Ac. Josyanne Rita de Arruda Franco/ SP.
2º Lugar Trova - SEM TÍTULO - Ac. Em. Abílio Kac/RJ.
3º Lugar Trova - SEM TÍTULO - Ac. Em. Luiz Gondim de A. Lins/ RJ.


CATEGORIA ESPECIAL:

CRÔNICA - CATEGORIA ESPECIAL
1ª Lugar Crônica - O GUIZO, A MENINA E A POESIA - José Henrique da Costa/... .
2º Lugar Crônica - FOLHAS E VIDA - Aída Lucia Pullin Dalmasso Begliomini/ SP.
3º Lugar Crônica - NOIVADO DOS TEMPOS MODERNOS - Alba Helena Correia/ RJ.

POESIA - CATEGORIA ESPECIAL
1ª Lugar Poesia - ENFERMO - Aída Lucia Pullin Dalmasso Begliomini/ SP.
2º Lugar Poesia - NUM BAR EM SUR LA SORGE - Fátima Darcinete de Almeida/ RJ.
3º Lugar Poesia - INVASÃO - José Henrique da Costa 

01/11/2017

O BANDEIRANTE - Edição nº 300


O BANDEIRANTE - nº 300 - Novembro de 2017 

(clique na capa abaixo para fazer download)


O jornal "O Bandeirante" chega à edição de nº 300. O periódico teve sua estreia em novembro de 1992. Leia nesta edição o editorial alusivo ao feito e veja na página O Bandeirante deste blog todo seu histórico, além de poder ler ou fazer download das mais de 250 edições já disponíveis.
Veja ainda, na edição 300, 0 noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Rodolpho Civile, Carlos José Benatti, Mércia Lúcia de Melo Neves Chade, Vera Lúcia Teixeira, Wladimir do Carmo Porto e Alcione Alcântara Gonçalves.

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
você terá acesso a outras informações sobre os eventos e atividades da Sobrames-SP
noticiados nessa edição.

23/10/2017

VENCEDORES DA IX JORNADA NACIONAL SOBRAMES 2017 RIO DE JANEIRO

OS 10 MELHORES TRABALHOS
(PROSAS)
10º lugar: Maria de Fátima Calife Batista (PE),  Sobre um Silêncio
9º lugar: Jorge Bermudez (RJ), Tenente Orellana, rh negativo
8º lugar: Rosiclelia Matuk Fuentes Torrelio (RJ), O cão meliante
7º lugar: Lucia Elena Ferreira Leite (RJ), Crônica de uma Cidade
6º lugar: Márcia da Silva Sousa (MA), Em boca fechada
5º lugar: Augusto Heitor  Xavier de Brito (RJ), Tratado geral sobre a utilização dos apontadores luminosos pelos expositores de temas científicos
4º lugar: Pedro Franco (RJ), Dr Negrão e o sabiá

PROSAS VENCEDORAS
Terceiro Lugar: Rosiclelia Matuk Fuentes Torrelio (RJ), Em busca da crônica perdida
Segundo Lugar: Lucia Elena Ferreira Leite (RJ), Elza ou Eliza
Primeiro lugar: Josyanne Rita Arruda Franco (SP),Terraços da Alma

OS 10 MELHORES TRABALHOS
(POESIAS)
10º lugar: Djalma Mendonça (RJ), As três graças
9º lugar: Carlos Francisco de Almada Rocha (RJ), Diluição
8º lugar: Arquimedes Viegas Vale (MA), Minha saudade
7º lugar: Carlos Francisco de Almada Rocha (RJ), Percepção da ausente
6º lugar: Marcia Etelli Coelho (SP), Um toque de ternura
5º lugar: Maria do Perpétuo Socorro A. Veras ( MA), Atendendo pedidos
4º lugar: Josyanne Rita de Arruda Franco (SP), Folhas Mortas

POESIAS VENCEDORAS
Terceiro Lugar: Paulo Silva de Oliveira (RJ), Ortopoema
Segundo lugar : Elizabeth Gomes de Oliveira (RJ), O mendigo e a cachorrinha
Segundo lugar: Roberto Ferreira de C. Filho, Morro dois irmãos
Primeiro lugar: Maria de Fátima do Rego Filho (PE), Terra nossa . Gente forte 

07/10/2017

Nova edição de O BANDEIRANTE

O BANDEIRANTE - nº 299 - Outubro de 2017 

(clique na capa abaixo para fazer download)

Na edição de outubro de 2017 do jornal "O Bandeirante" você encontrará o noticiário do período e na parte literária os textos em prosa e verso destes escritores: Sérgio Perazzo, Walter Whitton Harris, Roberto Antonio Aniche, Josef Tock, Márcia Etelli Coelho e Gertrudes Focássio.

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
você terá acesso a outras informações sobre os eventos e atividades da Sobrames-SP
noticiados nessa edição.

05/10/2017

ALGO MUITO INESPERADO


            Não há como esquecer aquela manhã. Animados, meu marido e eu,  para enfrentar a estrada do Guarujá até Ilha  Bela, pois estávamos de férias,  já nos preparávamos para partir.
            Por volta de umas nove ou dez horas tudo pronto. Mas como a televisão estava  ligada, de repente uma visão terrível: um avião vai de encontro a um edifício altíssimo de duas torres  em Nova York. Um repórter em altos brados anunciava o desastre, que estava sendo visto pelo mundo todo. Naturalmente esse acidente, ou melhor, esse ataque deixou o mundo todo estupefato. No meu pensamento no primeiro momento, ainda achava que talvez fosse uma daquelas cenas de ilusionismo, muito bem montadas para impressionar, que muitas vezes aparecem na televisão. Mas o locutor da TV, parecendo assustado,  avisava que a cena era real.
Estarrecidos ainda esperamos um pouco para ver do que se tratava. Era um ataque verdadeiro: o mundo todo pôde assistir àquela barbaridade. Inúmeras  pessoas perderam a vida nesse acidente  nas torres Gêmeas, como era chamado o conjunto de edifícios naquela cidade.  
Pouco tempo depois, meu irmão muito aborrecido nos contou do amigo que havia morrido naquele  acidente. Era um grande amigo de infância, filho único de um casal que morava próximo dos  meus pais. Os dois iam sempre andar de bicicleta pelo bairro. Às vezes a mãe vinha preocupada,  procurar o filho porque  senão ele perderia o horário da escola.
            Este ano, fui com uma filha,  visitar e assistir à formatura de dois netos, engenheiros que haviam ido realizar pós-graduação  nos Estados Unidos. Aproveitei para passear pelas cidades onde estavam vivendo: Evanston ao lado de Chicago e Philadelphia e encerrar a viagem  em Nova York.
            Naturalmente Nova York oferece muita coisa interessante para se assistir, visitar e aproveitar a cidade. Museus, galerias de arte, tudo grandioso e bem cuidado, especialmente bem cuidado!  Um dos monumentos que não podíamos deixar de ver,  era o que havia sido construído em homenagem a todos que haviam morrido no ataque às torres gêmeas. Fica bem no centro na cidade.
             Não sou cismada nem costumo querer encontrar respostas para tudo que nos acontece, mas diante do monumento lembrei-me de repente de alguma coisa que já não podia contar como sendo minha. E por uma razão especial senti que voltava para um passado tão agradável num bairro calmo, na casa de meus pais e minha juventude.
            Por que seria?
            Grandioso e interessante, é um monumento, circular, formado  por um pequeno muro todo de pedra, e junto às  paredes internas, cai água continuamente para dentro como se fosse  um enorme poço. A mureta, de mais ou menos uns  60 centímetros de altura, é larga e na sua superfície um número imenso de  placas de metal com os nomes de todos que perderam a vida nesse terrível  ataque às torres Gêmeas.
            Realmente uma homenagem muito bonita para algo que foi muito mais do que triste. De grande violência causou um grande  choque no mundo todo.
            Não sou cismada nem costumo achar  que isto ou aquilo acontece por alguma razão e que preciso encontrar uma resposta para tudo que me cerca ou me acontece. Mas há fatos, coincidências  estranhas, inexplicáveis que nos  causam surpresa ou  talvez mesmo um susto.
            Ao me aproximar do  muro de pedra, entre algumas placas  me deparei com uma placa, com  um nome que eu conhecia. Eu não queria acreditar! Era mesmo o nome daquele  amigo do meu irmão. Senti-me assustada diante de um fato que não saberia explicar. Jamais iria procurar tal nome no meio de um sem número de placas que ali guardavam os nomes dos que havia desaparecido nesse terrível desastre.
            Que estranho! Mas creio que entre tantas vidas que se perderam no acidente, aquele devia ser o  único nome   que eu conhecia. Não pude deixar de fotografar a placa com o nome do Ivan.
             E ao  deixar o monumento, ainda impressionada imaginei que talvez meu irmão, que já faleceu e o amigo pudessem ter se encontrado noutra vida, como bons companheiros que tinham sido.

MARIA DO CÉU COUTINHO LOUZÃ

02/10/2017

METAFÍSICA


Aristóteles nos ensina a enxergar
A enxergar com os olhos da visão
Em sua plenitude e no detalhe
A longitude, latitude e altitude.

Apreendermos os detalhes das cores
A dimensão, quantidade, volume.
Só assim conheceremos pela visão
O desconhecido, ignorado, cético.

Na metafisica enxergamos pela visão,
Não do olho, mas o da mente.
Pela percepção extra-sensorial.
Através do silogismo e da logica.

A filosofia através da razão
Busca a verdade manifesta
Através do intelecto intuitivo,
A visão metafisica, a espiritual.


JOSÉ FRANCISCO FERRAZ LUZ

30/09/2017

PIRAJÁ


Pirajá é um simpático bar e restaurante localizado na esquina da Faria Lima com a R. Padre Carvalho, em Pinheiros - SP. Ambiente descontraído com boa comida, bebidas na dose e temperatura corretas, garçons solícitos e uma agradável música ambiente com decibéis apropriados para meus geriátricos tímpanos!
Aí, fiquei matutando o que significava a palavra Pirajá! Trata-se de um termo de origem tupi que indica “o que está cheio de peixes”, viveiro de peixes. O interessante é que no cardápio, deste estabelecimento, só constam três pratos à base de pescado. Portanto, o que teria a ver o nome do bar com a origem da palavra?
Com esta denominação, sei que há um bairro em Salvador, algumas cidades, riachos, cachaça fabricada em Paraty e batalha. Aliás, a Batalha de Pirajá ocorreu durante a guerra de Independência do Brasil, na então Província da Bahia, em 08 de novembro de 1822, quando o Exército Pacificador brasileiro botou prá correr os portugueses quando tentavam impedir que nosso país conseguisse a sua independência.
Nesta contenda, é descrito um interessante episódio. O Major Barros Falcão, que comandava as tropas brasileiras, ordenou ao corneteiro Luís Lopes que tocasse a retirada. Não se sabe se por engano ou por conta própria, este corneteiro deu o toque para a cavalaria avançar e degolar. O mais curioso é que não havia nenhuma tropa de cavalaria no local! Porém, os portugueses entraram em pânico e fugiram esbaforidos, o que permitiu que os brasileiros se recompusessem, vencendo a peleja.
Há uma estátua do Corneteiro Luís Lopes localizada, atrás de um poste, numa esquina da Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema- RJ, de autoria do artista Ique. O mais curioso é que a estátua parece estar apontando um fuzil, apesar da forma ser de uma corneta! Será que este corneteiro continua atento conclamando os brasileiros para avançar e combater os corruptos deste país?
E quem foi o Visconde de Pirajá? Na época era conhecido no interior baiano, como Coronel Santinho e foi um dos principais heróis da guerra de Independência do Brasil, lutando contra as tropas portuguesas na Bahia. Imaginem que, para financiar o confronto, comprometeu todos seus recursos financeiros. D. Pedro I, reconhecendo os inestimáveis serviços prestados à Pátria, concedeu-lhe o título de visconde.
Voltando ao Pirajá Paulista, enquanto apreciava a minha refeição, ouvi a música de autoria de Noel Rosa – Conversa de Botequim (1935), que me chamou a atenção para essa parte da letra: Telefone ao menos uma vez/ Para três quatro, quatro, três, três, três/ E ordene ao seu Osório/ Que me mande um guarda-chuva/ Aqui pro nosso escritório...Excelente ideia, pensei! Vou montar aqui o meu escritório. Já escolhi a mesa num local ventilado e bem iluminado do salão, elegi o meu garçom predileto e decorei o número do telefone do estabelecimento. Falta só imprimir o cartão com a nova direção. Vou providenciar a mudança e é prá já e meu destino certo é o Pirajá!


EVANDRO GUIMARÃES DE SOUSA

28/09/2017

MAGIA


Um dia
Tirei da cartola
Um sol amarelo
Que joguei pro alto
E se prendeu no céu.

Depois
Lentamente
A primavera
Vestida de flores.

Ainda tirei da cartola
O canto de um rouxinol
E um pássaro invisível
Que realmente voou entre as nuvens.


SÔNIA ANDRUSKEVICIUS DE CASTRO


24/09/2017

AMOR DE PRIMAVERA


Meu amor é como a primavera
Cheio de flores.          
Chegou o verão passou o inverno
Chegou outono levou as flores.
Nosso amor trouxe de volta a primavera
Como não amar-te agora
Que sinto teu corpo, tua alma
Eu te amo e me entrego por inteiro
Como não amar-te se venceste ao tempo
Como não amar-te com tão nobre sentimento
Como não amar-te com meu amor de poeta
Como não amar-te em silêncio
Como não amar-te a gritos
Como não amar-te se trouxeste
De volta a primavera.


MELIDA VELASCO CASSANELLO

17/09/2017

SONHOS E FUGAS


Sim, lembro-me bem. Era uma tarde outonal, de céu límpido e temperatura bem mais amena do que fora a noite. As folhas caídas forravam as ruas nas quais eu flanava, tentando espiar as preocupações que sempre me afligiram.

Já na meia idade não me era permitido mais as ilusões da juventude. Afinal é o momento em que a realidade se impõe sobre os sonhos que, ainda assim, buscamos em nosso íntimo.  Subitamente meus pensamentos são bloqueados pela visão que surge à minha frente. 

Impossível não a observar. Suas longas pernas contrastavam com seu corpo. Mantinha a cabeça ereta, tal como fazem os determinados. Seus grandes olhos pareciam dominar o ambiente e a tudo observa.

Tentei alcançá-la, mas ela rapidamente se afastou.  Estes encontros se repetiram nos dias que se sucederam.  A cada encontro uma nova fuga. Nenhum contato mais próximo ocorreu. Até que por fim não mais a vi. Com certeza encontrou um lugar seguro onde não mais era necessário fugir de ninguém.

A busca quase frenética em revê-la fez com que naqueles dias não mais pensasse na juventude, que de resto já não mais existia em mim, ou nos sonhos não realizados.

Como legado ficaram seu canto que escutava quando de mim fugia e a lembrança de seu corpo de cor acastanhada, de sua crista e seu longo bico vermelho, características que nos permite identificar as Seriemas, que nos cerrados encontram o seu lar !!!!

Teria sido a determinação em não se deixar ser invadida a lição que devemos aprender para realizar nossos sonhos?


MARIO SANTORO JUNIOR

12/09/2017

O SABER


Pouco Valeria saber se não pudesse transmitir;
Pouco Valeria transmitir se não pudesse contribuir;
Pouco Valeria contribuir se não pudesse partilhar;
Pouco Valeria partilhar se não pudesse somar;
Pouco Valeria somar se não pudesse multiplicar;
Pouco Valeria multiplicar se não pudesse dividir;
Pouco Valeria dividir se não pudesse diminuir a dor,
o sofrimento, a ansiedade, a espera, a angustia...
Ai, sim! Valeria a pena saber sabendo saborear o sabor pelo saber.

JUAREZ MORAES DE AVELAR


02/09/2017

O BANDEIRANTE - EDIÇÃO ESPECIAL

O BANDEIRANTE - nº 298 - Setembro de 2017 

(clique na capa abaixo para fazer download)

A edição especial de setembro de 2017 do nosso jornal "O Bandeirante" tem 12 páginas e está imperdível. Nele você encontrará o noticiário do período, em especial um painel fotográfico da XIV Jornada Médico Literária Paulista; na parte literária publicamos os textos vencedores dos concursos de prosa e verso do evento. São eles: Josyanne Rita de Arruda Franco, Nelson Jacintho, Luiz Jorge Ferreira, Sérgio Augusto de Munhoz Pitaki, José Warmuth Teixeira e Márcia da Silva Sousa.

O jornal O BANDEIRANTE é interativo: através dos links da edição em PDF 
você terá acesso a outras informações sobre os eventos e atividades da Sobrames-SP
noticiados nessa edição.

31/08/2017

VENCEDORES XIV JORNADA MÉDICO LITERÁRIA PAULISTA SOBRAMES SP

CATEGORIA POESIA


PRIMEIRO LUGAR : Voltar
Nelson Jacintho (SP)

SEGUNDO LUGAR: Lundu
Luiz Jorge Ferreira (SP)

TERCEIRO LUGAR  Oco
Sergio Augusto de Munhoz Pitaki (PR)


 CATEGORIA PROSA


PRIMEIRO LUGAR:  Brincadeira de Adultos
Josyanne Rita de Arruda Franco (SP)

SEGUNDO LUGAR:  O Hotel dos Fantasmas
José Warmuth Teixeira (SC)

TERCEIRO LUGAR:  Três
Márcia da Silva Sousa (MA)

Todos os textos classificados encontram-se na edição 298 de “O Bandeirante” setembro de 2017


BRINCADEIRA DE ADULTOS


Faz muitos meses, foi enquanto esperávamos um voo que atrasaria duas horas. O saguão abrigava poucas pessoas e facilmente percebermos um ao outro. Ele, muito alto e com fisionomia diversa do meu povo de origem. Eu, mulher de baixa estatura e alguma eterna ousadia. Percebi que ele me olhou com curiosidade; na sequência, com maior interesse. Eu sorri, apenas isso. Depois, fiquei apreensiva com meu atrevimento de sinalizar simpatia a um estranho no salão do aeroporto quase vazio.
Sem dar muitas voltas, ele bateu com segurança por três vezes no assento vazio ao lado do dele para que eu fosse até lá. Quanta petulância! Um homem que nem conheço me chamar com tanta confiança, como se fosse natural que eu aceitasse um convite formulado daquela maneira... Foi um desafio inesperado.
Sou dada a desafios. Sem qualquer cerimônia, levantei e fui até ele, que franziu a testa, intrigado com minha aceitação, sem relutar. Deveria estar habituado a resistências ensaiadas, mesuras e cenas.
Por que relutaria? Sou livre e uma conversa diferente ajudaria a passar o tempo, ao invés de buscar isolamento na prisão da tela do meu celular. Gosto de conversar e até poderíamos ficar amigos.
De mesma idade, tivemos rápida afinidade e gostos semelhantes para a música, lazer e... devaneios. Tão sonhador quanto eu mesma, ele trazia em seus traços de origem italiana um perfil renascentista desamparado, desnudado na alma e com o coração magoado. Cantamos em italiano e ele me ensinou a conjugar dois verbos.
O fato é que os minutos pareciam correr em velocidade anormal diante daquela conversa que fluía com naturalidade. Enquanto o temporal desabava, falamos sobre um pouco de muita coisa e fiquei surpreendida com sua leveza de pensamentos.
A chuva pesada que atrasou nosso voo era cheia de relâmpagos e trovões. Nada ouvíamos, ilhados do mundo real. Começamos a imaginar pequenos prazeres para aquelas horas de chuva. Aproveitar o tempo para o amor em leito perfumado e morno, tremulando os corpos no ritmo da tênue chama da lareira. Em seguida, a pausa silenciosa de quem desfruta a paz do êxtase.
No aconchegante quarto da nossa imaginação caberiam planos para o que talvez nunca chegasse. Haveria desejo e promessas, pois os amantes são assim: mergulham afoitos na paixão oceânica, para viverem imersos em futuro caudaloso.
Falávamos entre risos, em baixo volume, com malícia sutil, fluência e liberdade, sem nos tocarmos, flutuando na aura sensual do teatro que encenávamos brincando de amar sem amar, em narrativa construída para ilustrar algumas horas.
Ele se divertia, sentia-se desafiado. Com ternura, passou os dedos em minhas têmporas, assinalada por alguns rebeldes fios de cabelos brancos. Eu desenhei com o indicador a sobrancelha dele, farta e quase grisalha. Um sorriso o fez fechar os olhos e se lembrar de algo que não me disse e que não perguntei, respeitando o momento.
Só isso... Mas três mulheres eram nossa plateia e nos observavam com o olhar enviesado de críticas. Nosso teatro as desagradava, nossa proximidade física febril e maliciosa era reprovável, mesmo sendo apenas encenação imaginada para um momento de amor não vivido, passatempo de dois estranhos em uma brincadeira de adultos.
Quando nosso voo finalmente foi anunciado, levantamos de nossos assentos com melancolia quase sem sentido. Trocamos cartões de visita e ele me deu um grande e demorado abraço, deixando que eu me dirigisse à fila para só depois seguir o mesmo caminho.
O casaco preto de uma das mulheres ficou pendurado na cadeira. Preferi não avisar. Com o arrepio frio do ar no interior do avião, talvez percebesse o quanto é bom encontrar calor em outro ser humano e que há milhares de maneiras para isso.
Embarcados, apenas nosso olhar em procura nos aproximava. Ele me achou e enviou um aceno que respondi do meu lugar, localizado sobre uma das asas.
Meu Davi acomodou sua bolsa na cabine sobre a poltrona para seguir viagem. Enviou beijos e saudações agitadas, depois mais beijos e galanteios pelo celular. Sorri comigo mesma antes de me despedir. Nossa brincadeira logo seria parte do passado.
Há alguns dias desabou um temporal assustador. A tempestade me pegou ainda no consultório e me remeteu à lembrança daquele dia do começo de dezembro último.
As águas de março caíam impiedosas quando o celular sinalizou mensagem por um aplicativo famoso. Meu Davi me perguntava se eu me lembrava dele. Eu disse que sim, especialmente porque chovia muito. 
Há meses ele também pensava nos momentos lúdicos que imaginamos no aeroporto.
“Quando você estiver para sair, avise-me... estou aqui em frente. Aquele quarto nos espera”.

JOSYANNE RITA DE ARRUDA FRANCO
PRIMEIRO LUGAR CATEGORIA PROSA
XIV JORNADA MÉDICO-LITERÁRIA PAULISTA           


Todos os textos classificados encontram-se na edição 298 de “O Bandeirante” setembro de 2017

VOLTAR



Voltar...
Como seria lindo voltar...
Sentir a brisa fresca da manhã nascente
a acariciar nossos braços finos e desnudos,
nossas pernas esguias, de calça curta,
e nossos pés descalços,
que corriam junto
com nossa mente desarmada
e a nossa vontade incomensurável
de atingir o  infinito...
Voltar...
Voltar a sentir vontade de sonhar
o sonho que deveria vir,
a esperança que deveria nascer,
a vida real, que já estava,
mas parecia  não ter chegado, ainda...
Voltar...
Voltar aos braços das mães queridas
que deixavam o trabalho
para nos  pegar no colo,
sabedoras das manhas e dos ciúmes
das crianças que querem ter o mundo,
mas que, ainda, preferem o calor do aconchego...
Voltar...
Voltar ao primeiro ano da escola
onde as professorinhas, quase adolescentes,
de olhos arregalados
de crianças assustadas,
deixavam  nosso pequeno coração
taquicárdico e apaixonado...
Voltar...
Voltar à primeira viagem de trem,
puxado pela maria-fumaça,
para São Paulo.
Voltar a ouvir o apito do guarda,
da plataforma da estação,
dando ordem para o trem partir,
e o apito da maria-fumaça, dizer
“Estou iiiinnnndoooo...”
E a maria-fumaça, não somente partia para São Paulo,
mas, também partia o nosso coração
de meninos do interior,
que pela primeira vez iríamos conhecer
a metrópole paulista.
Voltar...
Voltar ao arremedo de campo feito  de terra batida,
onde corríamos atrás de uma bola de pano
feita de farrapos e de  meia velha,
que não poderia ser mais usada por ninguém...
Voltar...
Como seria lindo voltar,
se tivéssemos aqueles pés ligeiros,
aquelas pernas finas e ágeis,
aquele fôlego de sete gatos,
aquela coragem irresponsável
de ser feliz
e todo aquele sonho
que parecia não acabar nunca,
mas que foi perdido pelos meandros
de nossa estrada que ficou para trás
e se consumiu com o passar dos anos...
Voltar... Ah, se fosse possível voltar!

NELSON JACINTHO
PRIMEIRO LUGAR CATEGORIA POESIA
XIV JORNADA MÉDICO-LITERÁRIA PAULISTA

Todos os textos classificados encontram-se na edição 298 de “O Bandeirante” setembro de 2017


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